Mensagens atribuídas a servidores da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep) são citadas pelo Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc) para reforçar a suspeita de fraude em contratos de tapa-buraco da Prefeitura de Campo Grande. Os diálogos constam em documento do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) usado na Operação Buraco Sem Fim.
Segundo os investigadores, as conversas ajudam a sustentar a tese de “manipulação deliberada e sistemática das medições de serviço” para beneficiar a Construtora Rial Ltda., principal alvo da operação. Em uma das mensagens, o então superintendente da Sisep, Mehdi Talayeh, cobra urgência no fechamento das medições da empresa para acelerar a liberação de dinheiro.
“Boa tarde / Precisaremos fechar hoje as medições e passar pro Rômulo pedir nota / Amanhã data limite para descer / Comece pela Rial”, diz um trecho. O Gecoc interpreta a mensagem como sinal de pressão para permitir a emissão de notas fiscais. Em outro diálogo, Mehdi pergunta sobre os valores: “RIAL janeiro dará mais ou menos 500 tudo é isso? / Vamos agilizar as medições de janeiro”.
Outro ponto sensível envolve mensagem atribuída a Erik Antônio Valadão Ferreira de Paula, servidor da Sisep preso na operação. Ele relata que fazia medições sem a presença do “apontador”, funcionário responsável pelos registros diários. “As Rial estou fechando, está demorando porque estou tendo que medir as ruas que fizeram que não tinha apontador”, afirma. Para o MPMS, a ausência desses registros compromete a confiabilidade técnica das medições usadas para justificar pagamentos.
O Gecoc afirma que os pagamentos não correspondiam ao trabalho realizado, mas a “valores fictícios arbitrados”. O documento também atribui funções específicas aos investigados. Antônio Roberto Bittencourt Teixeira Pedrosa, conhecido como “Peteca”, é apontado como “sócio oculto e verdadeiro tomador de decisões” da Construtora Rial. Formalmente, a empresa está registrada em nome do filho dele, Antônio Jacques Pedrosa Junior, e da esposa, Lieni Gusmão Jaques Pedrosa.
O Ministério Público afirma que a Rial acumulou contratos e aditivos milionários entre 2018 e 2025, mas as movimentações citadas começam em 2022. Os contratos listados somam R$ 113,7 milhões. Um exemplo é o contrato da Região do Segredo, que saltou de R$ 4,2 milhões para R$ 21,3 milhões. Outro, na região do Anhanduizinho, passou de R$ 10,2 milhões para R$ 46,9 milhões. O Gecoc avalia que os valores “não encontram lastro na precária realidade das obras executadas”.
A defesa do ex-secretário municipal Rudi Fiorese afirma que a investigação trata de fatos já analisados na Operação Cascalhos de Areia e que não há elementos novos para justificar as prisões. A reportagem não conseguiu contato com a defesa dos empresários citados.
