Um documento sobre segurança pública que será entregue aos candidatos à Presidência da República pela Esfera Brasil coloca Mato Grosso do Sul no centro dos efeitos do comércio da cocaína sobre a economia formal. A entidade, dedicada ao estudo dos impactos do crime organizado, aponta a corrosão das instituições provocada pelo fortalecimento de facções como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho).
As propostas apresentadas aos presidenciáveis têm como base um estudo da Esfera Brasil em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Segundo o levantamento, o tráfico internacional da cocaína movimenta cerca de R$ 335,1 bilhões por ano com a droga que entra no país.
A estimativa, que considera o valor da cocaína na Europa, indica que aproximadamente 60% da droga que ingressa no Brasil pelas fronteiras com Bolívia e Paraguai passa por Mato Grosso do Sul antes de seguir para centros consumidores ou mercados internacionais. Essa cadeia de negócios equivale a cerca de R$ 200 bilhões anuais, valor superior ao Produto Interno Bruto (PIB) sul-mato-grossense.
Grande parte dos recursos é apropriada ao longo da cadeia criminosa, remetida ao exterior ou reciclada por mecanismos de lavagem de dinheiro. A magnitude desse mercado ajuda a explicar por que organizações criminosas passaram a disputar espaços na economia formal, infiltrando-se em setores estratégicos.
O presidente do Conselho Acadêmico do Instituto Esfera Brasil, o jurista Pierpaolo Bottini, afirmou que o governo brasileiro precisa promover uma integração entre os órgãos de segurança e ampliar a cooperação internacional em inteligência. Ele defende o compartilhamento de bancos de dados e o fortalecimento dos mecanismos de rastreamento financeiro para combater a lavagem de dinheiro.
Bottini afirma que a cadeia do etanol em Mato Grosso do Sul é um dos setores que mais despertam preocupação. A Operação Carbono Oculto identificou, no fim do ano passado, um grupo de oito distribuidoras de combustíveis instaladas em Iguatemi operadas por empresários acusados de ligação com o PCC.
O poder econômico dessas organizações pode ser medido pela capacidade de absorver perdas. Em 2025, operações da Polícia Federal retiraram de circulação aproximadamente R$ 9,5 bilhões em bens ligados às facções. Mesmo assim, elas mantiveram suas atividades. Nos primeiros 45 dias do programa Brasil Contra o Crime Organizado, o Ministério da Justiça contabilizou mais de R$ 2 bilhões bloqueados ou apreendidos.
Nem a perda de cargas estimadas entre 20 e 50 toneladas de cocaína, apreendidas em Corumbá e Cáceres (MT), comprometeu a capacidade financeira das organizações. Os números reforçam a conclusão do estudo de que o enfrentamento mais efetivo exige interromper os fluxos financeiros que sustentam essas organizações.
O crime na economia formal
Pierpaolo Bottini avalia que o crime organizado deixou de ser apenas uma estrutura dedicada ao transporte e à comercialização de drogas. Segundo ele, tornou-se um agente econômico capaz de disputar mercados, adquirir empresas e infiltrar-se em cadeias produtivas estratégicas. “Um pedaço da economia foi capturado pelo crime organizado”, afirma.
Bottini defende o fortalecimento de instrumentos como o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) e o Susp (Sistema Único de Segurança Pública). O objetivo é impedir que o dinheiro do narcotráfico continue penetrando na economia formal. Entre os setores que despertam maior preocupação está o agronegócio, incluindo a mineração, o mercado do ouro, os combustíveis e o etanol.
O alerta encontra ressonância em Mato Grosso do Sul, que vive uma transformação econômica impulsionada pela expansão da celulose, da produção de grãos e da indústria de etanol de milho. São cadeias produtivas que movimentam bilhões de reais e podem despertar o interesse de organizações criminosas interessadas em reciclar recursos ilícitos.
A Operação Carbono Oculto revelou um esquema bilionário de fraudes tributárias e lavagem de dinheiro envolvendo empresas em Iguatemi. As investigações apontaram empresários ligados ao PCC como operadores do grupo econômico. A operação ilustra como o dinheiro gerado pela economia da cocaína busca espaços na economia formal.
Quando o crime compensa
O economista Pery Shikida, da Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná), sustenta que o criminoso toma decisões semelhantes às de qualquer agente econômico, comparando ganhos, custos e riscos. Quando o lucro esperado supera o risco de prisão, a atividade criminosa tende a se expandir.
Uma pesquisa coordenada por Shikida em dez unidades prisionais da Região Metropolitana de São Paulo entrevistou 408 condenados por crimes econômicos. O estudo mostrou que a renda média obtida na atividade criminosa alcançava R$ 46,3 mil por mês, valor 12,9 vezes superior ao rendimento médio no mercado formal. Para 91,2% dos entrevistados, os benefícios econômicos superavam os custos da atividade ilícita.
Segundo o economista, essa relação torna-se mais vantajosa nas regiões de fronteira. Shikida afirmou que, em Mato Grosso do Sul, a probabilidade de êxito das operações ligadas ao tráfico pode variar entre 95% e 98%, reduzindo a probabilidade de prisão para menos de 5%.
A fronteira extensa e com baixo controle estatal amplia a rentabilidade do negócio. A proximidade com os países produtores de cocaína e a estrutura logística disponível reduzem custos operacionais e elevam as margens de lucro das organizações criminosas.
No rastro do dinheiro
O secretário-executivo da Secretaria de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul, coronel Wagner Ferreira da Silva, avalia que são os lucros e a probabilidade de sucesso do criminoso que embalam o tráfico. Segundo ele, apenas aumentar apreensões de drogas ou prender integrantes das facções não altera a lógica financeira que sustenta essas organizações.
“Só vamos medir resultados se houver ações efetivas de sufocamento do poder financeiro dessas organizações”, afirma. Wagner resume a lógica econômica que move o narcotráfico com uma pergunta: “Quem não investiria em um negócio que oferece grandes chances de retorno?” Para ele, combater essa lógica exige elevar o custo do crime e impedir que o dinheiro da cocaína continue irrigando a economia formal.
